domingo, 25 de agosto de 2024

 

O que é a ISO 9000?

A ISO 9000 faz parte de um conjunto de normas técnicas que estabelecem diretrizes e padrões para criação de um sistema de gestão da qualidade. Ele é formado pelas normas 9001, 9004 e 19011 cujo objetivo é otimizar os processos da gestão de qualidade de um produto ou serviço.

 

Crônica -  ISO: 9000 - Procedimentos

O Sufoco: Não tinha nada para escrever, sabe leitor, aquele dia que você tem a obrigação de escrever, digo sobre aquela obrigação por contrato. Saí de casa sem rumo catando pelas ruas qualquer motivo para escrever. O duro é que não havia nada, todas as situações pareciam estar em férias. Tirar água de pedra não é mole não, não havia nem mesmo um cachorro para fazer xixi num poste qualquer. Fui à padaria tomar um café! Um velho truque usado pelos cronistas quando não acham nada na ideia. Quem sabe uma padaria me salva! Pensei alto: Não gosto de usar este expediente, mas...

A Salvação: Numa assembleia de cachorro feita no estádio do Morumbique tinha aproximadamente 60 mil deles, segundo a cãolícia militar. O assunto era importante e se tratava de vida ou morte. Uma morte era a causadora de toda essa preocupação. Um cachorro havia morrido esmagado.

O Poder: Estamos falando de um tempo que não havia diferenças entre o como uma cachorra e um cachorro fazia xixi. Ambos abriam as duas pernas e satisfaziam a necessidade orgânica normalmente, a diferença estava no local feito: elas faziam em qualquer lugar. Eles preferiam os postes, elas não tinham nenhuma intenção especificas além da necessidade, já para eles este ato era um fator identidade: ser o proprietário, ter o poder, e outra cositas mais do mundo canino.

O Fato: Um cachorro foi fazer xixi perto do poste e por um motivo alheio a sua vontade aconteceu o inacreditável. O poste, sem nenhum aviso, caiu sobre o cachorro. Foi chamado os cachombeiros e estes não mediram esforços para tirarem o pobre animal daquela situação ainda com vida. Foi  levado ao Cãospital pela cacholância com todo volume da sirene. Feitas algumas intervenções cirúrgicas e depois levado a Cão.TI. Lá permaneceu por algumas horas e uma alternativa: ir desta para melhor, fechar o paletó, ir conversar com o seu deus, despedir-se, falecer ou morrer. Tudo apenas uma questão de linguagem.

O Velório: Os cãosdicatos moveram a sua estrutura e proporcionou ao seu associado o status de ilustre. O velório foi no prédio da entidade e com direito ao hino da associação, bandeira da Federação sobre o caixão e outras cositas mais. No cãompo santo teve direito a salva de uivo com a orquestra cãofônica municipal de Cachorrolópolis. O cortejo saiu da Avenida central para o cachorrotério Latido Final. Foi acompanhado pelas diversas camadas cachorrais da pequena cidade. As cachorras puderam exibir todo arsenal de cortes de pelos da moda. Afinal quem perdesse esse espaço poderia não achar um cão digno e corria um sério risco de ficar à mercê de um vira-lata qualquer. Com certeza, diria o filósofo sertanejo João Carcule “a cachorrada andava de rabo erguido, era importante mostrar a sua classe”

O Cortejo: O enterro foi um sucesso como disse o presidente do cãosdicato. Tanto em volume de animal como de moda, toda imprensa se fez presente até famoso telejornal – LN – Latido Nacional e fizeram a matéria desde o velório até a covaforma do embarque final do finado. O Âncora do jornal fez até um comentário: “ Isso é uma vergonha!”.

A causa mortis: A morte do indivíduo foi estudada em todos os aspectos referentes ao procedimento. A forma com que ele fez o xixi no poste era a maior preocupação do grupo. Relembravam várias vezes os depoimentos das testemunhas e chegavam a uma conclusão de que a vítima tinha seguido todos os procedimentos para fazer a sua demarcação. Era unânime a afirmação de que a vítima chegou perto do poste cheirou-o, deu uma volta no poste observando e cheirando as demarcações anteriores escolheu o lugar e fez o xixi na base do mesmo.

O Estudo: Um deles Cão.H.D. em PID (Procedimentos de Identificação Demarcatórias)  levantou a questão de rever esse procedimento e questionou se já não estava na hora de mudar de atitude em função de estudos mais recentes que já relatavam falhas nesse procedimento, e afinal esse procedimento já era secular e uma cãociedade evolui, latia ele em todas as direções. Todos os presentes acharam interessante esse olhar, mas como mudar um procedimento secular e até instintivo? Seria como mudar geneticamente um hábito instintivo de um cão!! O estudioso pediu que deixasse com ele. Assumiu o compromisso de respeitar a tradição e que os procedimentos estariam prontos em alguns minutos e, que ainda, poderiam colocar a proposta em votação na assembleia.

A Proposta: Enquanto isso. O show rolava no palco, atendia a qualquer facção: late-rock, late-reggae, cão-bossa, cão-xé e por aí vai até a música raiz: cão-pira. Numa bobeira dos organizadores apareceu um cãolítico e aproveitou a deixa do técnico de som.  Mais que depressa soltou os seus latidos em cima de 40 mil watts de potência e, sem demora, foi tirado e atirado par fora com as mesmas watagens  de potência pelos Pits Bulls da  segurança. Bem feito! Demagogia tem hora e local. Recomposto o recinto, o presidente da entidade assumiu o microfone. Posicionou o pensamento da entidade, reafirmou a preocupação sobre direitos básicos da demarcação territorial e apresentou a proposta de mudança do PID.

O Novo PID: O procedimento seria:

1) Achar o poste;

2) Certificar o ângulo de 90 graus;

3) Certificar-se da garantia da qualidade;

4) Cheira-lo em toda a sua volta dele;

5) IDA - Identificar as Demarcações Anteriores

6) Colocar o novo ID.

Porém para tal demarcação teria de levantar uma das pernas, aquela que estivesse mais próxima do poste, para fazer o xixi. O burburinho começou então o presidente limitou em alguns minutos a discussão para depois colocar em votação.

A Recepção: Foi uma gritaria geral. Como mudaria uma coisa secular? Sempre foi feito daquele jeito! Em todo globo o procedimento era igual! O problema estava no poste e não no procedimento! Muda-se o tipo ou o material do mesmo e pronto! Teria de mexer no procedimento era só o que faltava!!! A agitação foi geral tanto que se formaram grupos em todos os cantos e a discussão era a mesma: Não mudaria nada! Era secular o PID!  Uma questão de tradição, manter esse procedimento e também a nova proposta só mudaria a questão de erguer uma das pernas!  Após os minutos permitidos, o microfone foi acionado e iria começar a votação.

A Reflexão: Um cão pediu a palavra antes havia uma questão a ser esclarecida:

- A proposta apresentada traz apenas uma novidade: erguer a perna que estivesse mais próxima do poste! Se analisar bem, a única mudança que encontraremos seria a de que o liquido urinário (ID) atingiria um pouco acima do lugar alcançado pelo procedimento anterior! E mais, a diferença entre o primeiro procedimento e o segundo era de centímetros e ainda dependeria do tamanho do cachorro. Os menores nem perceberiam a diferença! Então mudar um procedimento secular e instintivo por causa de centímetro seria uma afronta à tradição!

A Reação: Foi uma ovação geral era como se a assembleia fizesse dela aquelas palavras. Por um momento os organizadores ficaram sem saber como derrubar aquele argumento tão bem construído. Então seria a vez do Cão.H.D.  esclarecer aquela dúvida e convencê-la do contrário e foi:

- O procedimento é praticamente o mesmo. Localiza-se o poste, anda em volta dele e demarca. O novo no procedimento é que além de obedecer a ISSO 9000 em relação à qualidade. Enfocaria também o item segurança. Ao levantar a perna em direção ao poste para o jato de ID, ele estaria em posição de defesa, se por ventura, o poste caísse naquele momento tão importante. Seria, então, uma grande oportunidade para apoiar o poste com a perna no momento de sua caída e então teria um tempo para gritar por socorro!

A Votação: A vaias foram inevitáveis, os latidos de todos os timbres  surgiram de todos os lados e até com direito a uivos de alguns e sussurros siberianos.

O Encerramento: Dissolveu-se assembleia, todos foram embora, só ficaram os técnicos para desmontar o som, a coisa foi tão rápida que alguns deles nem tinha terminada a sua cãomitex do almoço.

Fim do Trabalho: Até hoje, não se percebe a qualidade nos postes e há falhas no PID. O cachorro não anda em volta do poste para verificação e nem certifica a qualidade do mesmo, mas a ideia do Cão-H.D. pegou. A perna sempre será erguida por questão de segurança, estética ou prepotência e etc. não importa. O que interessante para uma sociedade é que houve mudança e isso é salutar.

  

Comentário sobre a crônica

O texto "ISO: 9000 - Procedimentos" é uma crônica que utiliza elementos humorísticos e uma metáfora estendida para criticar procedimentos burocráticos e a resistência a mudanças dentro de sistemas institucionalizados. Ao retratar uma assembleia de cachorros discutindo a alteração de um procedimento secular — a maneira como fazem xixi em postes —, o autor expõe a absurdidade de debates exageradamente formais sobre questões que, muitas vezes, têm pouca relevância prática, mas que se tornam importantes devido à rigidez das normas e tradições.

A crônica segue uma estrutura que mescla a vida cotidiana com elementos fabulescos, onde animais, neste caso, cachorros, agem como seres humanos. Essa humanização (antropomorfismo) dos cachorros serve para refletir sobre a própria natureza humana, especialmente em relação à burocracia e à obediência à regras.

O Sufoco e A Salvação: A introdução aborda o bloqueio criativo do autor, que busca inspiração nas ruas, uma situação comum entre escritores. Em seguida, ele encontra a “salvação” ao imaginar uma assembleia canina. Esta transição súbita da realidade para a fantasia introduz o tema central da crônica, que é o confronto entre o tradicional e o moderno.

O Poder e O Fato: Aqui, a crônica explora a importância simbólica de atos aparentemente simples, como fazer xixi em um poste. Para os cachorros, esse ato representa poder e identidade. O “fato” de que um poste caia sobre um cachorro em um momento tão crucial serve como catalisador para todo o debate subsequente, enfatizando a ironia da dependência de procedimentos para algo tão natural e instintivo.

O Velório, O Cortejo e A Causa Mortis: Esses trechos ampliam o tom satírico, tratando a morte do cachorro com uma solenidade exagerada, parodiando rituais humanos. A crônica critica a maneira como a sociedade muitas vezes trata questões banais com uma seriedade desproporcional.

A Proposta e O Novo PID: A introdução de um novo procedimento, que envolve a elevação da perna ao urinar para fins de segurança, faz uma analogia direta com as normas ISO 9000, que regulam padrões de qualidade. O autor satiriza a ideia de que um simples ato instintivo precisa ser regulamentado, sugerindo que, muitas vezes, a introdução de novas regras pode ser motivada mais pela burocracia do que pela necessidade prática.

A Reflexão e A Reação: A resistência à mudança, apresentada pela assembleia de cachorros, é uma crítica à forma como as tradições são protegidas, mesmo quando essas tradições se tornam obsoletas ou irrelevantes. A reação dos cachorros mostra como a resistência a mudanças muitas vezes é mais emocional do que racional.

A Votação e O Encerramento: O texto culmina em uma votação caótica, onde as vozes conservadoras prevalecem, mas uma pequena mudança é aceita. Isso simboliza como mudanças pequenas e simbólicas podem ocorrer mesmo em ambientes altamente resistivos, mas também como essas mudanças muitas vezes são insuficientes para causar um impacto real.

Fim do Trabalho: O encerramento do texto sugere que, apesar das discussões e mudanças, a prática real pouco se alterou. Isso reflete o ceticismo do autor em relação ao impacto de mudanças formais dentro de sistemas rígidos.


Temas e Mensagem

Burocracia e Normas: A crônica critica a burocracia excessiva e a normatização de aspectos naturais e instintivos da vida. Ao usar o exemplo dos cachorros e sua forma de urinar, o autor ironiza como a sociedade tende a complicar o simples através de regulamentos.

Resistência à Mudança: A forte resistência dos cachorros à mudança é uma analogia à resistência humana a abandonar tradições, mesmo quando elas não são mais funcionais. A crônica sugere que essa resistência muitas vezes é motivada pelo medo do novo e pela inércia cultural.

Humor e Ironia: A crônica utiliza o humor e a ironia como ferramentas para criticar as instituições e as normas sociais. O tom leve e o absurdo das situações ajudam a subverter as expectativas do leitor, tornando a crítica mais palatável e, ao mesmo tempo, incisiva.

 

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